Durante muito tempo, chegar a comunidades rurais e regiões turísticas do Espírito Santo significava enfrentar estradas de terra, lama, poeira e trechos difíceis de percorrer. Para quem vivia da agricultura, transportar a produção era uma dificuldade diária. Para quem queria empreender, receber visitantes ou desenvolver o turismo, o acesso precário podia ser um obstáculo para dar início a um negócio.

Foto: Julio HuberA primeira estrada pavimentada foi a Rota do Lagarto, em Pedra Azul, que ajudou a transformar as montanhas capixabas
A primeira estrada pavimentada foi a Rota do Lagarto, em Pedra Azul, que ajudou a transformar as montanhas capixabas

Foi nesse cenário que nasceu o Caminhos do Campo, programa que, ao longo de mais de 20 anos, passou a transformar a infraestrutura de acesso em uma ferramenta de desenvolvimento rural. A proposta não era simplesmente levar asfalto para o interior, mas sim criar uma solução compatível com as características das estradas rurais, com menor custo, aproveitamento dos materiais disponíveis nas próprias regiões e atenção aos usos turístico e agrícola.

A proposta, no entanto, exigia mais do que uma decisão política, pois era necessário encontrar um profissional disposto a romper com os padrões tradicionais de construção de rodovias. O secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, participou desse processo e lembra que essa foi uma das primeiras dificuldades enfrentadas pelo governo. “Tivemos uma dificuldade de encontrar um engenheiro que saísse das fórmulas tradicionais da engenharia de estradas”, recorda.

Em 2024, a busca levou a equipe até o engenheiro de estradas Lauro Koehler, que foi convidado pelo Governo do Espírito Santo para trabalhar na concepção do programa. Ele acumulava décadas de experiência na área rodoviária, inclusive no então Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), hoje substituído pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

Foto: DivulgaçãoEnio Bergoli lembrou que a equipe do governo buscou modelos de pavimentação na Europa
Enio Bergoli lembrou que a equipe do governo buscou modelos de pavimentação na Europa

Na época, a equipe do Governo do Estado buscou experiências de pavimentação de estradas rurais de baixo custo na Europa. Itália, França e outros países serviram de referência para entender como pequenas vias poderiam receber pavimentação sem perder suas características originais. A partir dessas referências, o projeto foi adaptado à realidade capixaba e deu origem ao Caminhos do Campo.

“O grande objetivo era dar trafegabilidade em rotas agroturísticas e em regiões de concentração de produção rural o ano todo e induzir a novos negócios, como turismo, agroturismo, turismo de aventura”, explica Enio. Entretanto, ao analisar propostas que estavam sendo pensadas pelo governo estadual, Lauro Koehler se deparou com um modelo que, em sua avaliação, não funcionaria.

Foto: Julio HuberLauro foi o engenheiro responsável por tornar viável uma ideia do governo estadual de tirar lama, poeira e buracos das estradas
Lauro foi o engenheiro responsável por tornar viável uma ideia do governo estadual de tirar lama, poeira e buracos das estradas

“De cara, eu falei: isso não dá certo”, recorda Lauro, ao lembrar da proposta inicial, que previa dividir a execução entre prefeituras e empresas. Para ele, os municípios não teriam estrutura suficiente para conduzir obras de qualidade, principalmente porque precisavam administrar simultaneamente uma série de outras demandas.

A experiência prática reforçou sua avaliação. Ao visitar os dois primeiros trechos nesta modalidade, Lauro identificou problemas de execução, como material inadequado, falta de compactação e um revestimento asfáltico que, segundo ele, não correspondia às características daquelas estradas.

Uma estrada diferente de uma rodovia

O programa foi criado pelo então secretário de Agricultura do Espírito Santo e atual governador, Ricardo Ferraço. O caminho encontrado por Lauro para tornar a ideia de pavimentar estradas do interior viável partia de uma mudança de conceito. Em vez de aplicar às estradas rurais os mesmos padrões utilizados em rodovias estaduais, era preciso considerar o tipo de tráfego existente nesses locais.

“Você tem automóvel e pequenos caminhões carregando uma carga que não tem peso específico. Por quê? Porque a maioria da carga é hortigranjeiro, e os caminhões pequenos não têm o peso dos grandes que trafegam em rodovias estaduais”

Lauro Koehler – engenheiro de estradas

Para ele, um caminhão pesado eventualmente poderia passar sem comprometer a estrutura que ele havia proposto.

A solução também passava pelo aproveitamento dos materiais disponíveis em cada região. “A coisa mais cara em pavimentação é transporte. Então, eu tinha que aproveitar o material da região”, afirma. O raciocínio ajudava a reduzir os custos e permitia pensar em uma pavimentação adequada ao movimento de cada comunidade.

Em vez do concreto asfáltico convencional, o modelo adotado utilizava tratamento superficial, uma técnica que, na explicação de Lauro, acompanhava a movimentação da base da estrada. “Você dá um banho, bota a pedra maior, dá outro banho, bota a pedra menor. Pronto. É isso aí”, resume, enfatizando a importância de uma boa base da estrada.

Foto: Acervo pessoalA base da estrada devia ser firme para receber as camadas do pavimento
A base da estrada devia ser firme para receber as camadas do pavimento

O resultado era uma estrutura mais simples e barata. Segundo Lauro, o custo chegava a ser “pelo menos oito vezes mais barato” que o de uma rodovia convencional executada pelo departamento rodoviário.

Mais do que uma questão técnica, a diferença precisava ser explicada. O engenheiro chegou a elaborar um documento para deixar claro que o programa não pretendia construir rodovias estaduais. “Aquilo que a gente estava fazendo não era estrada. Estradas já existiam. O que nós estávamos fazendo era uma infraestrutura agrária e turística”, comenta.

A ideia era justamente aproveitar as estradas existentes, retirar delas a lama e a poeira e criar condições para que agricultores, moradores e visitantes pudessem circular com mais segurança e facilidade.

A primeira experiência nasceu em Pedra Azul

Foto: Bruno FaustinoA pavimentação da Rota do Lagarto revolucionou o turismo local e regional
A pavimentação da Rota do Lagarto revolucionou o turismo local e regional

Entre os primeiros trechos pavimentados, estava a Rota do Lagarto, em Pedra Azul, Domingos Martins. A escolha não aconteceu por acaso. A região reunia características paisagísticas, agrícolas e turísticas que ajudavam a demonstrar o potencial do novo modelo.

Ricardo Ferraço, atual governador do Espírito Santo e, na época da criação do programa, secretário de Agricultura, lembra que a inspiração veio do agroturismo praticado no interior da Itália, especialmente na região do Vêneto, de onde vieram muitos imigrantes que ajudaram a formar o Espírito Santo.

“São estradas que respeitam o traçado natural, com baixo impacto ambiental, valorizando e fortalecendo o escoamento da produção agrícola, mas também o agroturismo”

Ricardo Ferraço –  governador

A Rota do Lagarto foi escolhida justamente pelo potencial paisagístico. “Foi um traçado feito com muito cuidado, com muita delicadeza, para que a gente pudesse impactar o mínimo possível o paisagismo e o meio ambiente”, lembra o governador. O resultado, segundo ele, transformou o trecho em um dos exemplos mais emblemáticos do programa. Assista abaixo a uma entrevista em que o governador relembra o início do Caminhos do Campo.

Da estrada de tropeiros ao destino turístico

Quem visita hoje Pedra Azul percebe que a paisagem, que combina montanha, Mata Atlântica, propriedades rurais, cafés, restaurantes, pousadas e outros empreendimentos turísticos, parece fazer parte da identidade local. Mas quem acompanhou a região antes da pavimentação sabe que a realidade era bastante diferente.

Foto: Acerso pessoalA Rota do Lagarto foi a primeira estrada inaugurada pelo programa Caminhos do Campo
A Rota do Lagarto foi a primeira estrada inaugurada pelo programa Caminhos do Campo

Ozébio Peterle, proprietário do Restaurante Peterle, na entrada da Rota do Lagarto, cresceu ouvindo as histórias da estrada que passava diante de sua família. Antes dos carros, aquele era um caminho utilizado por tropeiros. Seu avô, Vitório Peterle, acompanhou a transformação do antigo caminho em estrada.

“Quando eu nasci, ela era um caminho de tropeiro”, conta Ozébio. Segundo ele, o percurso era utilizado por pessoas que saíam com tropas para buscar alimentos e levavam cerca de uma semana para completar a viagem de ida e volta até Araguaia, em Marechal Floriano, onde havia uma estação de trem.

Com a chegada dos primeiros veículos, a necessidade de acesso aumentou. Uma estrada simples foi aberta, parte manualmente e parte com máquinas. Durante muitos anos, porém, a situação permaneceu difícil. Antes da pavimentação, a Rota do Lagarto era marcada por barro, lama, poeira e pedras.

Foto: Julio HuberOzébio Peterle tem um restaurante no início da Rota do Lagarto e viu a região crescer
Ozébio Peterle tem um restaurante no início da Rota do Lagarto e viu a região crescer

“Até então ninguém queria pôr seu carro na lama, ou na poeira, ou raspar nas pedras. Não tinha um acesso bom”, lembra Ozébio. A mudança veio quando a pavimentação começou a ser implantada e o fluxo de visitantes cresceu.

Parceiro financeiro

O empreendedor também acompanhou outra transformação: a chegada de serviços financeiros mais próximos dos moradores e comerciantes. O Banestes, banco do Estado, está presente na trajetória de seu empreendimento desde 1984, quando a conta da empresa foi aberta em uma unidade instalada em um pequeno estabelecimento na região.

Para Ozébio, a proximidade do banco contribuiu para criar condições para que os pequenos negócios pudessem crescer. “Tendo o Banestes aqui do lado, tendo um contato junto com o gerente e a empresa sendo bem-vista, você tem facilidade de adquirir recursos para movimentar o negócio”, afirma.

Foto: Bruno FaustinoA agência do Banestes fica no centro da vila de Pedra Azul
A agência do Banestes fica no centro da vila de Pedra Azul

A experiência dele mostra que a transformação do interior não depende apenas da estrada. Infraestrutura física, crédito, serviços e capacidade empreendedora se somam para formar um ambiente favorável ao desenvolvimento. Na Rota do Lagarto, essa combinação ajudou a multiplicar os negócios. “Hoje, quanto empreendimento tem aqui na região, e tudo começou lá atrás e ganhou impulso com o Caminhos do Campo e com o Banestes”, diz Ozébio. Assista abaixo a um vídeo em que Ozébio fala mais sobre os benefícios trazidos pelo Caminhos do Campo para a região.

Uma estrada que abriu espaço para novos negócios

Hiltinho Passos, proprietário do Restaurante Passos, em Pedra Azul, também associa diretamente sua trajetória no turismo à transformação da Rota do Lagarto. Ele chegou ao setor praticamente junto com a pavimentação e viu o movimento de visitantes crescer. “Eu cheguei no turismo junto com a Rota do Lagarto. Esse mês faz 21 anos que a gente está aqui”, conta.

Foto: Julio HuberHiltinho Passos afirma que a infraestrutura das estradas foi o grande impulso para o turismo
Hiltinho Passos afirma que a infraestrutura das estradas foi o grande impulso para o turismo

A dimensão da mudança pode ser medida pelo próprio restaurante. O empreendimento que começou com seis mesas e capacidade para cerca de 20 pessoas hoje consegue receber até 300 clientes simultaneamente.

“Foi graças a esse incentivo que o Caminhos do Campo trouxe para a região que ganhamos visibilidade e o movimento passou a crescer”, afirma Hiltinho. Para ele, a pavimentação teve um efeito que foi muito além da mobilidade.

“As propriedades conseguiram se desenvolver e o turismo e o agroturismo deslancharam muito de lá para cá com a construção da rota”

Hiltinho Passos – empreendedor

O empresário também destaca que a importância do programa não está restrita ao turismo. As estradas pavimentadas melhoram o acesso dos agricultores, facilitam o escoamento da produção e criam condições para que novos empreendimentos surjam. “O interior ganhou muito com isso, desenvolveu, trouxe renda”, resume.

Apoio no crescimento

Na trajetória do empresário, outro fator também ajudou a sustentar o crescimento do negócio: o acesso ao crédito e a proximidade com o Banestes. Hiltinho relata que mantém conta no banco e destaca especialmente o apoio recebido durante a pandemia da Covid-19, período em que estava ampliando o restaurante. “Com a pandemia a gente passou muito apertado e viu que o Banestes era parceiro de verdade. O Banestes deu a mão e fez a gente passar por aquele período”, afirma.

A relação, segundo ele, também é favorecida pela presença do banco próximo aos empreendedores, mesmo em uma região que não é a sede do município. “É importante porque está próximo, porque é um vizinho que a gente tem, você não precisa se deslocar”, diz. Hiltinho ressalta ainda que a proximidade permite ao banco conhecer melhor a realidade local.

Para o empresário, a combinação entre infraestrutura e acesso a serviços que apoiem quem empreende ajudou a criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de Pedra Azul.

Mais visitantes

Essa transformação também é percebida por José Marcos Modolo, agricultor e empreendedor que mantém seu estabelecimento às margens da Rota do Lagarto, na entrada do Parque Estadual da Pedra Azul. Quando a estrada ainda era de chão, o movimento já existia, mas as dificuldades de acesso limitavam o potencial do negócio.

Foto: Julio HuberA pavimentação facilitou o escoamento da produção agrícola e o acesso dos turistas
A pavimentação facilitou o escoamento da produção agrícola e o acesso dos turistas

“Melhorou muito. Começou a vir mais visitantes. O movimento aumentou”, afirma.

Para ele, o Caminhos do Campo tem uma função que vai além do turismo. “É muito importante, tanto para a agricultura quanto para o turismo”, diz.

Presença que acompanha o desenvolvimento

Os relatos de Hiltinho Passos e Ozébio Peterle mostram como a proximidade de uma agência bancária pode fazer diferença para quem empreende no interior. Essa presença local também faz parte da estratégia do Banestes, que mantém a maior rede bancária do Espírito Santo e segue como o único banco com agências físicas instaladas nos 78 municípios capixabas. De acordo com informações da instituição, essa capilaridade permite que moradores, produtores rurais e empreendedores tenham acesso aos serviços financeiros sem precisar se deslocar para outras cidades, fortalecendo uma relação construída a partir do conhecimento da realidade de cada comunidade.

Ricardo Ferraço idealizou o programa de pavimentação, que passou a se chamar Caminhos do Campo

Ao todo, o banco conta com 738 pontos de atendimento distribuídos pelo Estado — sendo 199 na região Norte, 320 na região Central e 213 no Sul, além de seis unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro para dar suporte a clientes e negócios estratégicos. Essa estrutura atende cerca de 1,7 milhão de clientes, administra mais de 1,1 milhão de contas-correntes e aproximadamente 660 mil contas de poupança, consolidando uma presença que vai além da oferta de serviços bancários tradicionais.

No meio rural, essa atuação acompanha investimentos públicos em infraestrutura, como o Caminhos do Campo, criando um ambiente mais favorável ao desenvolvimento das comunidades. Segundo o banco, enquanto as obras melhoram a logística, reduzem custos e facilitam o escoamento da produção, linhas de crédito e programas como Plano Safra, Pronaf, Pronamp e Custeio Agrícola ajudam produtores a investir na propriedade, ampliar a produção e permanecer no campo com mais competitividade. A combinação entre infraestrutura e crédito, de acordo com a instituição, contribui para aumentar a produtividade agrícola e impulsionar a economia das diferentes regiões capixabas.

Essa atuação também alcança os pequenos negócios que surgem ou crescem ao longo dessas rotas. O principal exemplo é o Nossocrédito, programa que já ultrapassou R$ 1 bilhão em financiamentos concedidos a microempreendedores em mais de 170 mil operações ao longo de duas décadas. Somam-se a ele iniciativas como o Microcrédito Juntas, voltado ao empreendedorismo feminino, além de linhas de capital de giro, Pronampe, financiamentos do BNDES e fundos de aval, como o Garantir-ES, voltados à manutenção, expansão e geração de empregos em empresas de diferentes portes.

Esse conjunto de ações ajuda a explicar por que, em regiões como Pedra Azul, a transformação provocada pelo Caminhos do Campo encontrou terreno fértil para novos investimentos. Enquanto as estradas aproximaram visitantes e facilitaram a circulação da produção, a presença de serviços financeiros próximos das comunidades passou a oferecer condições para que produtores e empreendedores também transformassem oportunidades em negócios duradouros.

De uma experiência local a um programa estadual

A primeira experiência mostrou que a proposta poderia ir muito além de um trecho de estrada. O engenheiro Lauro Koehler conta que, no fim de 2005, uma empresa responsável por avaliar programas do governo apontou o Caminhos do Campo como aquele que apresentava maior visibilidade e aprovação popular.

O reconhecimento veio acompanhado de um novo desafio. Em dezembro daquele ano, o governador determinou que fossem elaborados projetos para 100 quilômetros até o início de fevereiro de 2006. “E nós fizemos”, lembra Lauro.

No fim de 2006, o programa já ultrapassava 200 quilômetros. Quando ele deixou o trabalho, eram cerca de 700 quilômetros. Hoje, a iniciativa já supera a marca de 1,2 mil quilômetros de estradas rurais pavimentadas em diferentes regiões do Espírito Santo.

Ao longo desse percurso, o programa também mudou. A tecnologia utilizada atualmente permite novas soluções de pavimentação e outras possibilidades de integração entre infraestrutura, paisagem e turismo.

Foto: Acervo pessoalFoto: Acervo pessoal
Ricardo Ferraço idealizou o programa de pavimentação, que passou a se chamar Caminhos do Campo

O governador Ricardo Ferraço destaca justamente essa evolução. “Hoje você tem tecnologias modernas que nos permitem fazer o caminho do campo de maneira mais suave e também agregado ao paisagismo junto dessa infraestrutura”, afirma.

Para ele, o princípio continua sendo o mesmo: criar infraestrutura sem perder de vista as características naturais e produtivas das comunidades. “É fundamental fazer a infraestrutura, mas respeitar os recursos naturais porque é esse casamento que potencializa toda a vocação do agroturismo no Espírito Santo”, enfatiza.

Quando a estrada chega, outras oportunidades vêm junto

Foto: Bruno FaustinoA Rota do Carmo é um dos últimos trechos pavimentados pelo Caminhos do Campo
A Rota do Carmo é um dos últimos trechos pavimentados pelo Caminhos do Campo

A história da Rota do Lagarto ajuda a entender por que a pavimentação de uma estrada rural pode produzir efeitos que vão muito além da mobilidade. A estrada facilita a chegada do turista, mas também permite que o produtor transporte sua mercadoria, que o empreendedor receba fornecedores, que uma família acesse serviços e novos negócios encontrem condições para se instalar.

Essa transformação está novamente acontecendo na região de Pedra Azul, agora com a Rota do Carmo. Wagner Uliana, morador da comunidade há 44 anos, trabalha com turismo e cafés especiais há quase duas décadas e lembra de uma estrada que durante anos era marcada por buracos, poeira e dificuldades de circulação.

Foto: Julio HuberWagner Uliana tem uma cafeteria na Rota do Carmo, que recentemente recebeu pavimentação por meio do Caminhos do Campo
Wagner Uliana tem uma cafeteria na Rota do Carmo, que recentemente recebeu pavimentação por meio do Caminhos do Campo

Segundo ele, a pavimentação de nove quilômetros mudou a realidade local, pois o movimento cresceu entre 50% e 60%, em média, depois da obra. O impacto alcançou desde pequenos produtores até empreendedores da hotelaria, cafeterias, restaurantes e propriedades rurais.

“Hoje, é uma realidade que a gente vive aqui e não tem palavras para descrever o que foi feito na Rota do Carmo”

Wagner Uliana – proprietário da cafeteria Contos do Ninho

Assista abaixo a uma entrevista com Wagner Uliana e imagens da Rota do Carmo.

O depoimento mostra uma nova etapa do programa. Se a Rota do Lagarto foi capaz de demonstrar, ainda nos primeiros anos, que uma estrada poderia funcionar como indutora do turismo, a experiência da Rota do Carmo reforça que o mesmo princípio pode ser aplicado para consolidar comunidades inteiras e estimular novos negócios.

Uma ideia que ganhou estrada

Lauro Koehler deixou o programa em 2013, depois de anos acompanhando sua implantação. Ao olhar para trás, ele não define sua relação com o Caminhos do Campo exatamente como orgulho ou comemoração. Prefere outra expressão: dever cumprido. “Eu fiz, com todo amor pela coisa, o que eu achava que era certo”, afirma.

A história, porém, ganhou uma dimensão que ultrapassou a trajetória pessoal de seu idealizador. O programa passou a fazer parte da paisagem do Espírito Santo e ajudou a aproximar comunidades rurais de mercados, visitantes e novas possibilidades de renda.

Para Ricardo Ferraço, essa trajetória transformou o Caminhos do Campo em uma referência. “O Caminhos do Campo capixaba é imbatível”, afirma. Segundo ele, outros Estados já procuraram conhecer a experiência desenvolvida no Espírito Santo.

Foto: Julio HuberO programa Caminhos do Campo virou referência nacional
O programa Caminhos do Campo virou referência nacional

Mais de duas décadas depois, a estrada que nasceu como uma solução para tirar lama e poeira dos caminhos rurais tornou-se parte de uma transformação mais ampla. Na Rota do Lagarto, o resultado pode ser visto em hotéis, restaurantes, cafeterias, propriedades rurais e empreendimentos que passaram a enxergar o turismo como atividade econômica. Na Rota do Carmo, a mesma transformação continua acontecendo.

O que começou como uma experiência diferente de tudo que existia naquele momento ganhou milhares de quilômetros e a função de não apenas ligar lugares, mas aproximar pessoas de oportunidades. E, em regiões como Pedra Azul, a estrada acabou se tornando parte da própria história do desenvolvimento.

Esta é a primeira de uma série de quatro reportagens produzidas pelos portais Montanhas Capixabas e Negócio Rural para mostrar como o programa Caminhos do Campo ajudou a transformar a realidade de comunidades rurais em diferentes regiões do Espírito Santo. Ao longo da série, histórias de produtores, empreendedores e moradores revelam como a melhoria dos acessos contribuiu para fortalecer a agricultura, facilitar o escoamento da produção, estimular o turismo e abrir novas oportunidades de desenvolvimento no interior capixaba.