O campo que movimenta economias e transforma vidas
Histórias de produtores mostram como crédito, empreendedorismo e apoio técnico ajudam a transformar o campo e movimentar economias no interior brasileiro
Jocelino Machado, de São Mateus (ES), transformou o sonho de ter um pedaço de terra em realidade com apoio financeiro e muito trabalho
Texto: Julio Huber / Fotos: Julio Huber
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O dia ainda nem clareou e, em muitas cidades do interior do Brasil, agricultores já colocam o café no fogo, organizam as ferramentas e seguem para mais uma jornada nas lavouras. Seja no sol forte, na chuva, no frio ou no calor, a rotina no campo não espera. Há sementes para plantar, lavouras prontas para a colheita, terreiros carregados de café para secar e animais que dependem dos cuidados diários.
Entre o preparo da terra e a colheita, milhões de produtores rurais sustentam um dos setores mais importantes da economia brasileira. Da pequena agricultura familiar às grandes fazendas tecnificadas, produzir no campo exige planejamento, conhecimento, tecnologia, investimentos e capacidade constante de adaptação a esse negócio a céu aberto.
Ano após ano, o agricultor brasileiro dá provas de sua capacidade de produzir mais, com mais qualidade e em menos área. Não por acaso, o Brasil se consolidou como uma das maiores potências agrícolas do mundo. Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o agronegócio representa cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, movimentando aproximadamente R$ 3,2 trilhões.
Por trás desses números estão milhões de brasileiros que vivem da terra nas mais diferentes regiões do país – agricultores que começaram sem a própria terra, famílias que encontraram no campo uma oportunidade de recomeço e produtores que ajudaram a transformar a realidade econômica de municípios do interior.

Um desses exemplos é o do produtor rural Jocelino Machado, de São Mateus, no Norte do Espírito Santo. “Eu comecei sem nada. Trabalhava para os outros e sonhava em ter um pedaço de terra”, relembra. Hoje, no assentamento de Nestor Gomes, onde construiu a vida ao lado da família, ele produz café e pimenta-do-reino, gera empregos e presta serviços para outros agricultores da região.
Quem vê Jocelino caminhando entre os pés de café e os terreiros de pimenta dificilmente imagina que, durante grande parte da vida, ele trabalhou como meeiro em propriedades de terceiros, sem saber se um dia conseguiria construir o próprio patrimônio e se transformar em empreendedor do campo.
Já no assentamento Córrego Alegre, em Nova Venécia, Noroeste capixaba, a agricultora Rosângela Gasoli Francisco da Silva também encontrou na agricultura uma forma de sustentar a família. Em pouco mais de um hectare de produção agroecológica, ela cultiva hortaliças orgânicas que abastecem feiras e mercados da região.
Enquanto isso, a trajetória do produtor rural Pedro Jair Silvio Schumacher revela outra face das transformações vividas pelo agro brasileiro. Filho de agricultores de Pancas, no Noroeste do Estado, ele saiu de uma pequena realidade familiar para participar hoje de um conjunto de propriedades irrigadas que somam cerca de 1.200 hectares distribuídos entre Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais.
Mais do que ampliar a própria produção, os investimentos ajudaram a mudar a dinâmica econômica de regiões inteiras. Em um projeto iniciado em 2016 na região de Mucuri (BA), Pedro viu comunidades antes esvaziadas voltarem a crescer com a chegada das lavouras irrigadas.
“Na época, tinha casa vazia que o pessoal deixava alguém morar só pra pagar a energia. Hoje não tem mais casa vazia. O comércio voltou a se movimentar, surgiram empregos, e a economia da região voltou a crescer”, relata.
Foi em busca de histórias como essas que a Revista Negócio Rural percorreu diferentes regiões do Espírito Santo para entender o que conecta realidades tão distintas no campo brasileiro. Da agricultura familiar aos grandes projetos irrigados, a reportagem mostra como produção, empreendedorismo, assistência técnica e acesso ao crédito ajudam a movimentar economias locais, gerar empregos e transformar a realidade de milhares de famílias que vivem do campo.
Trajetória construída com trabalho e crédito transforma meeiro em referência local
Foto: Julio Huber

A vida de Jocelino se transformou quando ele comprou seu primeiro terreno em 2007
A história do produtor rural Jocelino Machado, 51 anos, começa longe da estabilidade que hoje ele constrói no Sítio Machado, no interior de São Mateus. Antes de ter sua própria terra, ele viveu anos como meeiro, trabalhando em propriedades de terceiros e alimentando um sonho que parecia distante.
“Eu era meeiro. A gente vai passando o tempo e vai pensando em comprar, querendo ter o seu pedaço de terra”, conta. A caminhada passou por diferentes cidades até que ele conseguiu adquirir uma pequena área. Mais tarde, vendeu essa propriedade, juntou recursos – incluindo um financiamento – e deu um passo decisivo: comprou, em 2007, a área onde vive hoje, já dentro de um assentamento rural.
Quando chegou, encontrou apenas terra bruta. “Aqui não tinha nada, era só capoeira, café velho e abandonado. Fui plantando, arrancando, plantando de novo até formar as lavouras”, relembra ele, enquanto caminha entre os pés de pimenta-do-reino, plantação que se orgulha de mostrar e relatar a alta produtividade. Hoje, ele cultiva cerca de 24 mil pés de café e 3 mil de pimenta-do-reino, cultivados com o apoio da família e de trabalhadores da região.
O PONTO DE VIRADA – Desde o início da sua trajetória como proprietário, ele destaca a importância do acesso ao crédito, que foi determinante para o crescimento da sua produção. O primeiro financiamento, junto ao Banco do Nordeste, foi ainda modesto, mas abriu caminho para os investimentos seguintes. “Na época, peguei uns R$ 11 mil. Depois veio outro de R$ 15 mil. Agora já chegou a R$ 100 mil”, relata.
“A gente começa de baixo, começa fraco e sem crédito, você planta mal plantado”
Jocelino Machado – Produtor rural
A evolução dos valores acompanha o crescimento da atividade e também a confiança construída ao longo dos anos. “Eu ainda nem tinha acabado de pagar o segundo quando peguei o terceiro financiamento”, diz.
Para Jocelino, o diferencial não está apenas no acesso ao recurso, mas nas condições oferecidas. “Temos três anos de carência, mas quando chega a hora de pagar, você já produziu e gerou recurso para pagar todo o financiamento. O juro é bom, a parcela fica leve, e foi assim que a gente conseguiu chegar onde está. Se não fosse isso, seria muito mais difícil. A gente começa de baixo, começa fraco e sem crédito, você planta mal plantado”, destaca.
INVESTIMENTOS – O exemplo mais claro do impacto do crédito na propriedade é recente: a aquisição de um secador de pimenta, financiado por meio do programa Agroamigo, do Banco do Nordeste. Além de ampliar a capacidade produtiva, o equipamento rapidamente se mostrou viável economicamente e já se pagou na primeira safra.
Foto: Julio Huber

De meeiro, Jocelino virou proprietário rural e hoje é considerado um empreendedor ao oferecer serviços a vizinhos
O equipamento também abriu uma nova frente de renda: a prestação de serviço para outros produtores, o que o transformou em empreendedor rural. Assim, o sítio passou a funcionar como um ponto de apoio para outros agricultores da região, fortalecendo uma rede local de produção. “Não é só a minha pimenta que eu seco. O pessoal aqui por perto que não tem secador traz a produção, e eu ganho um percentual, mas eles também ganham, porque economizam trabalho. É uma troca”, explica.
Renda circula e transforma a comunidade
O impacto da atividade vai além da propriedade. Durante a colheita da pimenta, a demanda por mão de obra gera renda significativa para trabalhadores locais. “Já cheguei a pagar R$ 1,80 por quilo colhido. Teve gente que colheu 400, 500 quilos por dia”, conta. Na prática, isso pode representar até R$ 700 por dia para um trabalhador.
Para Jocelino, a distribuição de renda é um dos principais efeitos do investimento. “O dinheiro não fica só com a gente, mas vai para o mercado, para a energia, para o aluguel e faz tudo girar. E a colheita da pimenta é um serviço leve e amplia o acesso ao trabalho para mulheres, jovens e idosos”, disse.
CRÉDITO ORIENTADO – Por trás dos números e investimentos, há um modelo de atuação que vai além da liberação de recursos. Segundo o agente de microcrédito rural do Banco do Nordeste, Militino Paiva Carrafa, o diferencial do programa está no acompanhamento direto ao produtor.
Foto: Julio Huber

Militino acompanha todos os investimentos feitos por Jocelino com recursos do Banco do Nordeste
“O Agroamigo é crédito orientado, e acompanhado e que existe há mais de 20 anos no banco. A gente não fica esperando o produtor nos procurar, a gente vem até a propriedade, entende a necessidade e monta o projeto junto com ele”, explica.
O trabalho inclui visitas técnicas, acompanhamento da aplicação dos recursos e avaliação dos resultados. “A gente volta, verifica se plantou, se o equipamento chegou, se está sendo usado corretamente. É para garantir que o investimento dê resultado”, destaca.
No caso de Jocelino, o projeto do secador foi um dos primeiros estruturados na região dentro dessa lógica. “Deu certo, e hoje já tem outros produtores seguindo o mesmo caminho”, revela Militino.
“Quando o produtor acessa o crédito, ele cresce, compra equipamento, melhora a produção, reduz esforço, mas também gera outras oportunidades”
Militino Paiva Carrafa – Agente de microcrédito rural do Banco do Nordeste
Foto: Julio Huber

Além do crédito, o Banco do Nordeste oferece orientação no campo
Para o agente, o impacto do crédito vai além da propriedade, pois cria um efeito em cadeia dentro das comunidades rurais. “Quando o produtor acessa o crédito, ele cresce, compra equipamento, melhora a produção, reduz esforço, mas também gera outras oportunidades. No caso do Jocelino, ele presta serviço, e isso cria um ecossistema que contribui para fixar famílias no campo, gerar renda e estimular novos negócios. Você traz a permanência do jovem, da mulher, e gera emprego”, garante o agente do banco.
Para Jocelino, a experiência ao longo dos anos consolidou uma visão clara sobre o papel do crédito rural. “Se você tiver que escorar só em você mesmo, como é que faz? Se está caindo, vai cair. O crédito é a escora da gente”, resume.
Hoje, com planos de ampliar a produção de pimenta, investir em novos equipamentos e até adquirir outro secador, ele segue olhando para frente com a mesma lógica que guiou sua trajetória desde o início: trabalhar, investir e crescer com responsabilidade. “Agora é continuar, produzir mais, melhorar mais, porque quando a gente tem apoio, a gente vai mais longe”, afirma.
Foto: Julio Huber

O plantio de pimenta-do-reino teve financiamento do Banco do Nordeste
Voltar para a terra mudou a vida de uma família
No assentamento Córrego Alegre, na zona rural de Nova Venécia, Noroeste do Espirito Santo, a agricultora Rosângela Gasoli Francisco da Silva, 34, carrega na sua trajetória a síntese da vida de milhares de famílias rurais brasileiras: a luta para permanecer no campo, a dificuldade de produzir de forma sustentável em pequenas propriedades e a importância do crédito para transformar sobrevivência em desenvolvimento.
Filha de assentados da reforma agrária, Rosângela nasceu e cresceu naquele mesmo pedaço de terra. O assentamento existe há cerca de 37 anos e surgiu a partir de um projeto apoiado pela Igreja Católica e pela Secretaria de Agricultura do Estado. As famílias chegaram à região ainda em barracos improvisados, após passarem por acampamentos em outras áreas do Espírito Santo. Com o tempo, cada uma recebeu uma pequena área para produzir e construir a própria história.
Foto: Julio Huber

Rosângela e o marido Adilton tiram do pequeno terreno a renda que sustenta a família
Mas, como aconteceu com muitos jovens do interior, ela acabou deixando o campo por alguns anos. Casou-se e foi morar em Vila Pavão com o marido, Adilton Henrique da Silva, 45, que trabalhava na extração de granito. A rotina era pesada, o trabalho instável, e a sensação de insegurança aumentava.
Foi então que o casal decidiu voltar para o assentamento. A escolha não envolvia apenas uma mudança de endereço, mas um recomeço completo. Eles retornaram praticamente sem estrutura financeira e precisaram reconstruir a vida do zero. “Quando voltamos, a gente tinha pouca coisa. A casa ainda nem estava totalmente pronta, mas a gente queria tentar de novo”, diz Rosângela.
A horta orgânica como caminho de sobrevivência
O casal voltou sabendo que iria começar a produzir hortaliças no cultivo orgânico. A escolha foi porque as hortaliças geram uma renda rápida, devido ao curto tempo entre o plantio e a colheita. “Com dois meses, a gente já estava vendendo na feira”, relembra Rosângela.
O início foi marcado pelo improviso e pelo esforço familiar em pequenos canteiros,com ferramentas simples e muito trabalho manual no terreno de pouco mais de um hectare. Aos poucos, a produção foi crescendo e hoje a família cultiva alface, couve, almeirão, cebolinha, mostarda, temperos e outras hortaliças, além de manter pequenas áreas de café e pimenta.
Toda a produção segue princípios agroecológicos, uma herança dos pais de Rosângela, que já integravam uma associação de produtores orgânicos da região. “Para nós, isso é uma escolha de vida. Primeiro pela nossa saúde, depois pela saúde de quem consome”, afirma.
Foto: Julio Huber

O casal cultiva diversas variedades de verduras e temperos orgânicos
Mesmo assim, produzir organicamente em pequenas propriedades exige resistência diária. O clima interfere diretamente na produção e qualquer problema pode comprometer toda a renda da família. Durante a pandemia da Covid-19, por exemplo, o impacto foi imediato. Feiras foram suspensas, escolas fecharam e programas institucionais pararam de comprar alimentos. A família perdeu a produção porque não tinha para quem vender.
A família começou a fazer entregas domiciliares e passou a atender clientes diretamente. Hoje, além da feira semanal, eles trabalham com delivery, fornecimento para merenda escolar e programas institucionais, em parceria com a Associação Veneciana de Agroecologia e com a Cooperativa Veneciana dos Agricultores Familiares (Coovaf).
O crédito que permitiu crescer
Entretanto, para transformar uma pequena produção familiar em uma atividade sustentável, apenas esforço não bastava – e faltava infraestrutura. E foi nesse momento que o recurso financeiro passou a fazer a diferença. Há cerca de seis anos, Rosângela e a família acessaram pela primeira vez uma linha do Agroamigo, do Banco do Nordeste.
“O começo é muito difícil. Você não consegue juntar dinheiro suficiente pra investir. Então o crédito ajuda a tirar o projeto do papel”, afirma. O primeiro recurso foi usado para melhorar a estrutura básica da propriedade. Depois vieram novos financiamentos, destinados à compra de equipamentos, melhoria da irrigação, perfuração de poço, aquisição de insumos e mecanização leve da produção.
“O começo é muito difícil. Você não consegue juntar dinheiro suficiente pra investir. Então o crédito ajuda a tirar o projeto do papel”
Rosângela Gasoli Francisco da Silva – Agricultora
Cada etapa foi planejada cuidadosamente. “A lógica da agricultura familiar é diferente da visão que muitas pessoas têm do crédito. Não se trata de pegar dinheiro para consumo pessoal, mas para investir diretamente na capacidade produtiva da propriedade. Você pega o recurso sabendo que vai precisar pagar. Então, o investimento tem que trazer retorno. Tudo que a gente pega vai para melhorar a produção, porque assim você consegue vender mais, produzir melhor e pagar”, afirma.
Ela destaca ainda que as condições oferecidas pelo Banco do Nordeste foram determinantes para que isso fosse possível. Os prazos, a carência e os descontos para pagamento em dia ajudaram a tornar os financiamentos viáveis para pequenos agricultores.
Água, produção e dignidade
Uma das maiores mudanças proporcionadas pelo crédito foi a segurança hídrica da propriedade. Antes, a falta de água limitava completamente a produção em determinadas épocas do ano.
Com os investimentos feitos por meio do financiamento, a família conseguiu melhorar o sistema de irrigação e estruturar melhor o abastecimento da propriedade. Agora, o próximo passo é construir uma estufa e ampliar a captação de água. A expectativa é reduzir perdas causadas pelas chuvas fortes e manter uma produção mais estável ao longo do ano.
Foto: Julio Huber

O casal cultiva diversas variedades de verduras e temperos orgânicos
RESISTÊNCIA – Apesar dos avanços, Rosângela afirma que ainda existem muitos obstáculos para os filhos de assentados que querem permanecer no campo. Ela conta que, em muitos casos, pequenos produtores não conseguem acessar linhas tradicionais de crédito por falta de garantias formais ou renda compatível com as exigências bancárias convencionais.
“Se não fosse um programa como esse do Banco do Nordeste, nenhum banco ia olhar para nós. Ele dá oportunidade, dá condição de a gente crescer sem precisar sair daqui”, afirma. Na conversa com o casal entre os canteiros de verduras da propriedade, Rosângela fala sobre o futuro com o mesmo cuidado com que cultiva as hortaliças. “É cansativo, mas é daqui que a gente vive e é aqui que a gente quer continuar”, conclui.
Jovem aposta no empreendedorismo e diversificação no campo

Ao lado do pai, Vantuir, Cassiano se orgulha da construção da fábrica de polpas na propriedade
Foi no Sítio Boa Esperança, que fica na localidade de Córrego Boa Esperança, em São Gabriel da Palha, que o jovem Cassiano Lagass cresceu acompanhando o pai, Vantuir Lagass, na pequena propriedade da família, no Noroeste do Espírito Santo. A rotina sempre esteve ligada à agricultura tradicional, principalmente à produção de café, atividade que sustentou a família por muitos anos. Mas, ainda jovem, ele acreditava que precisava buscar algo diferente daquilo que conhecia desde criança.
Como muitos filhos de produtores rurais, decidiu sair da propriedade para tentar construir uma vida na cidade. Durante cerca de três anos, viveu longe da roça e chegou a abrir um espetinho em sociedade com um amigo. “Eu sempre pensei em fazer alguma coisa diferente. Fui pra rua, fiquei três anos lá, mas depois eu enxerguei que a roça era melhor”, conta.
O retorno ao campo, porém, não significava continuar exatamente no mesmo caminho do pai. Cassiano queria inovar. Mais do que produzir matéria-prima, desejava criar um negócio próprio, agregar valor à produção agrícola e construir algo que tivesse sua identidade.
EMPREENDEDORISMO – No retorno para a propriedade, ele passou a produzir maracujá, fruta que tinha muita procura. Na época, ele a vendida in natura, como acontece com grande parte dos produtores rurais da região. Mas uma observação simples começou a mudar sua forma de enxergar o negócio.
Ao conhecer produtores de polpa de frutas em São Roque do Canaã, percebeu que o valor agregado da polpa era muito maior do que o da fruta vendida diretamente da lavoura. “Eu levava minhas frutas pra lá e comecei a reparar no valor das coisas. Vi que a fruta estava barata, e a polpa era cara. Aí pensei: vou comprar uma maquininha e produzir a polpa”, relatou.
“Esse crédito foi decisivo para acelerar um crescimento que, sem apoio financeiro, eu levaria muitos anos para alcançar”
Cassiano Lagass – Empreendedor rural
A decisão veio acompanhada de coragem e improviso. O primeiro equipamento era uma pequena despolpadeira de apenas 20 litros. A produção começou de forma totalmente artesanal, dentro da propriedade da família. “No começo era tudo manual. A gente enchia os saquinhos na concha e pesava um por um”, recorda. Mesmo simples, o negócio começou a crescer rapidamente. Em poucos meses, a demanda aumentou tanto que a pequena estrutura já não dava conta dos pedidos.
O crédito acelerou o crescimento
Foi nesse momento que o Banco do Nordeste entrou na trajetória do jovem produtor. Após conhecer as linhas de financiamento do Agroamigo durante uma reunião realizada na Cooabriel – cooperativa de café à qual seu pai é cooperado -, Cassiano buscou crédito para estruturar a pequena agroindústria.
O financiamento, de cerca de R$ 100 mil, permitiu construir a fábrica e adquirir equipamentos maiores, incluindo uma envasadora industrial. “Com o recurso eu fiz a construção e comprei a máquina. Esse crédito foi decisivo para acelerar um crescimento que, sem apoio financeiro, eu levaria muitos anos para alcançar. Eu ia ter que ir lutando devagarzinho ou tirar dinheiro da roça pra investir na empresa”, afirmou.

A envasadora industrial acelerou os trabalhos e contribuiu para o aumento na produção de polpas
Com os investimentos, a produção passou a operar em outro nível. A pequena despolpadeira artesanal deu lugar a equipamentos capazes de processar centenas de quilos por hora. Mais do que ampliar a produção, o financiamento trouxe profissionalização.
Sebrae ajudou a profissionalizar o negócio
À medida que a produção crescia, novos desafios apareceram. Era preciso legalizar a marca, adequar a estrutura às exigências sanitárias e preparar a empresa para novos mercados. Foi então que o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/ES) passou a fazer parte da caminhada. Cassiano buscou consultorias e apoio técnico da instituição para organizar a agroindústria e entender todos os processos necessários para regularizar a produção.
“Primeiro eu fui num consultor que o Sebrae fornece. Ele já sabe tudo o que precisa. O suporte ajudou desde adequações estruturais até orientações para registro da marca e formalização da empresa. O Sebrae faz muita coisa que eu nem imaginava”, disse.
Enquanto o Banco do Nordeste ajudou a tirar o projeto do papel, o Sebrae contribuiu para transformar a produção artesanal em um empreendimento com visão empresarial.
FUTURO – Hoje, Cassiano representa uma geração de jovens produtores que decidiram permanecer no meio rural, mas enxergando novas possibilidades dentro da propriedade da família. Enquanto o pai construiu a vida principalmente na produção agrícola tradicional, o filho decidiu empreender, apostando na agregação de valor aos produtos.
Além da fábrica de polpas, ele já planeja novos investimentos ligados ao setor de alimentos e bebidas, incluindo uma cervejaria artesanal. Os primeiros barris de cerveja já começaram a ser produzidos e agradou aos amigos que a degustaram. “Quando eu entrei nesse ramo, minha mente abriu. Hoje eu vejo que comida e bebida é um mercado muito forte”, afirma.
Crédito acelera projetos e transforma territórios no Norte do Espírito Santo
Foto: Julio Huber
Pedro Schumacher produz café e mamão em 1.200 hectares de terras em cidades do Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais
Se nas pequenas propriedades rurais o crédito representa a possibilidade de permanecer no campo e manter viva a agricultura familiar, nos projetos de maior escala ele se transforma em ferramenta essencial para acelerar investimentos, ampliar produção e transformar economias de cidades inteiras.
No Norte do Espírito Santo e em municípios da Bahia e Minas Gerais, a trajetória do produtor rural Pedro Jair Silvio Schumacher, 49, mostra como o acesso ao financiamento rural ajudou não apenas a expandir negócios agrícolas, mas também a mudar a realidade de territórios que, até poucos anos atrás, enfrentavam estagnação econômica, êxodo populacional e falta de perspectivas.
Natural da comunidade de Laginha, no município de Pancas, Pedro cresceu em uma família tradicional da agricultura. A realidade da infância era marcada pelo trabalho duro nas lavouras de café em áreas montanhosas do Noroeste capixaba, onde o relevo limitava a mecanização e tornava a produção mais difícil.
Mesmo diante das dificuldades, Pedro e o primo Everaldo Soares Schumacher decidiram apostar em um novo projeto. Em 2010, eles compraram a primeira propriedade em Pinheiros, no Norte do Espírito Santo. A área tinha cerca de 35 alqueires e marcou o início de uma transformação que iria muito além daquela primeira fazenda.
Ao chegar à região, Pedro ficou impressionado com o potencial produtivo da área. Acostumado às montanhas de Pancas, encontrou terras planas, mecanização e agricultura irrigada. No início, eles decidiram apostar apenas no café conilon irrigado, cultura que já dominavam tecnicamente. O mamão, que mais tarde se tornaria um importante produto de crescimento da empresa, ainda era tratado com cautela, devido aos riscos do negócio.
O crescimento aconteceu de forma gradual. Sem grande capital disponível, cada investimento precisava ser calculado. Aproveitando linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e do programa Mais Alimentos, os produtores começaram a estruturar a propriedade, adquirindo os primeiros tratores e equipamentos.
“A gente fez as escrituras separadas porque era ‘pronafiano’. Assim conseguimos pegar juros menores para comprar os tratores e começar os investimentos”, disse. Enquanto os cafezais cresciam, milho verde foi plantado entre as linhas para gerar renda mais rápida. Tudo era pensado para manter a propriedade financeiramente sustentável enquanto o projeto se consolidava. Foi somente três anos depois que decidiram investir no mamão que a fruta contribuiu para uma mudança de rumo dos negócios.
Cooperativismo financeiro ajudou no início da expansão
Quando os primos resolveram ampliar os negócios, o cooperativismo financeiro teve papel decisivo no crescimento das operações, por meio do Sicoob. “O Sicoob é um grande parceiro nosso desde o começo. Muitos dos primeiros investimentos estruturais aconteceram graças ao apoio da cooperativa. O Sicoob entende a dinâmica do agro e mantém uma relação mais próxima aos produtores. Além do crédito, havia a facilidade de relacionamento e a agilidade no atendimento às nossas necessidades. Você conversa com pessoas que conhecem a realidade do campo”, destaca.
Com o avanço da produção, novas propriedades foram adquiridas em Pinheiros e depois em Pedro Canário. Aos poucos, os negócios começaram a se expandir também para áreas da Bahia e Minas Gerais, especialmente na região de tríplice divisa entre Mucuri, Nanuque e o Norte capixaba.
Banco do Nordeste acelerou projetos e ajudou a transformar territórios
Foi no ano de 2016 que os projetos dos primos Schumacher passaram a ganhar uma dimensão ainda maior. Naquele ano, eles iniciaram um novo empreendimento agrícola em Mucuri, Sul da Bahia, e começaram a operar fortemente com o Banco do Nordeste.
“O banco te alavanca, te dá velocidade, joga o produtor 20 ou 30 anos para frente”
Pedro Jair Silvio Schumacher – Produtor e empresário rural
Segundo ele, o acesso às linhas do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) transformou completamente a velocidade de crescimento dos projetos. “O Banco do Nordeste foi um divisor de águas. A partir de então, praticamente toda nova implantação passou a ser estruturada junto ao banco. Os financiamentos permitiram investir em barragens, pivôs centrais, irrigação, maquinário, infraestrutura e implantação de grandes áreas produtivas”, contou.
Pedro explica que, sem crédito, o crescimento dependeria exclusivamente do capital gerado pela própria produção, tornando o avanço muito mais lento. “O banco te alavanca, te dá velocidade, joga o produtor 20 ou 30 anos para frente. Até você implantar uma área grande só com recurso próprio, levaria muitos anos”, afirma.
Foto: Julio Huber

A produção de café conilon é a principal fonte de renda de Pedro e seus sócios
Hoje, os negócios dos quais participa somam cerca de 1.200 hectares irrigados – um salto gigantesco para quem começou, em 2010, com aproximadamente 30 hectares irrigados em Pinheiros. Mas, segundo ele, talvez o maior impacto desses investimentos não esteja apenas dentro das fazendas.
“A agricultura transforma vidas”
Ao falar sobre os projetos implantados nos últimos anos, Pedro faz questão de destacar a transformação social e econômica provocada pela chegada da agricultura irrigada em regiões antes marcadas pela estagnação econômica.
Um dos exemplos mais claros está em Mucurici, Norte capixaba, onde ele participa de um empreendimento agrícola iniciado há cerca de dois anos. O projeto já envolve investimentos próximos de R$ 30 milhões, e a meta é implantar 610 hectares de lavouras irrigadas – grande parte financiada pelo Banco do Nordeste.
Segundo Pedro, antes da chegada dos investimentos agrícolas, muitas comunidades da região sobreviviam basicamente da pecuária extensiva e tinham pouca geração de emprego. “Era um lugar onde praticamente não tinha serviço. A consequência era o abandono gradual das comunidades rurais. Muitos jovens deixavam a região em busca de trabalho em outras cidades ou estados”, relata.
Com a implantação das lavouras irrigadas, a realidade começou a mudar rapidamente. “Nossos funcionários hoje são pessoas que estavam em outros municípios e até em outros estados. Eles voltaram e contribuíram para o ressurgimento da localidade onde está nossa propriedade”, revela.
Foto: Julio Huber

Pedro se orgulha de ver a produtividade alcançada nas lavouras de café e mamão em suas propriedades
Ele conta que, para estimular a geração de renda local, tudo de que precisa na propriedade e que é possível encontrar ali ele compra. “Se eu preciso comprar um pão na padaria, é de lá. Se eu preciso de oficina e tem oficina que me atende, eu faço o serviço lá. A compra do supermercado é lá. O meu motorista do ônibus e o meu tratorista são de lá. Então, isso muda a história do lugar, pois movimenta a economia”, garante.
CIDADE RESURGE – O impacto econômico em regiões distantes dos grandes centros, quando recebe um investimento estruturado, faz cidades ressurgirem. Esse é o caso de uma localidade em Mucuri, no Sul da Bahia, onde Pedro, os irmãos e outro sócio compraram uma propriedade em 2016. Lá, casas antes vazias, onde os proprietários deixam algumas pessoas morarem apenas para pagar as contas de energia, passaram a ser ocupadas novamente. O comércio ganhou movimento, e novos serviços começaram a surgir.
“Você movimenta oficina, supermercado, farmácia, padaria, posto de combustível, transporte… Tudo começa a girar”, enfatiza. Apenas em Mucuri, a fazenda emprega 200 pessoas.
O empresário rural afirma que o crédito rural não financia apenas propriedades agrícolas. Ele cria oportunidades, impulsiona economias locais e devolve perspectivas para regiões que estavam perdendo população e atividade econômica. “A agricultura, quando chega organizada e com investimento, muda a história do lugar. O emprego traz de volta a dignidade, e o dinheiro circula tudo na cidade”, enfatiza.
Crédito como base do desenvolvimento rural brasileiro
Foto: Julio Huber

Superintendente do Banco do Nordeste no Espírito Santo, Lourenzo Oliveira destaca o diferencial da instituição para o pequeno agricultor
Os relatos de produtores rurais que transformaram as suas realidades e até as de cidades inteiras são um retrato do meio agrícola em todo o Brasil, em que o acesso ao crédito se transforma em elemento estruturante do agronegócio brasileiro. Seja viabilizando grandes projetos, permitindo o surgimento de novos empreendedores ou garantindo a sobrevivência da agricultura familiar, o financiamento atua como base do desenvolvimento.
E em um cenário em que o acesso ao crédito ainda é um dos principais desafios para o produtor rural brasileiro poder crescer, o Banco do Nordeste se posiciona com uma lógica inversa à praticada pelo mercado tradicional, pois quanto menor o produtor, melhores são as condições oferecidas.
Considerado o maior banco de desenvolvimento regional da América Latina, a instituição atua no financiamento de produtores rurais, microempreendedores e cooperativas por meio de linhas de crédito voltadas ao desenvolvimento econômico e social do Nordeste, norte de Minas Gerais e norte do Espírito Santo.
Segundo o superintendente da instituição no Espírito Santo, Lourenzo Oliveira, essa característica está na própria origem do banco, criado com a missão de reduzir desigualdades sociais e regionais. “O Banco do Nordeste nasceu com esse propósito. Ele tem na sua gênese os ideais de Celso Furtado de desenvolvimento regional, e isso se reflete diretamente no crédito. É o único banco do país em que, quanto menor o cliente, menor é a taxa de juros”, afirma.
Orientação e presença no campo fortalecem o crescimento
Um dos principais diferenciais da atuação do banco está na forma como o crédito chega ao produtor. Diferente do modelo tradicional, em que o cliente precisa procurar a agência, no Banco do Nordeste o processo é invertido. Por meio de programas como o Agroamigo, agentes de microcrédito vão até as propriedades, avaliam a realidade de cada produtor e estruturam projetos personalizados – e sem custo adicional.
“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Crédito demais, na hora errada, pode prejudicar. Mas o crédito na medida certa transforma”
Lourenzo Oliveira – Superintendente do Banco do Nordeste no Espírito Santo
“Não é só emprestar dinheiro. Existe toda uma metodologia. O agente vai até a propriedade, entende a necessidade, orienta, acompanha. Esse modelo permite que o financiamento seja ajustado à capacidade produtiva e financeira de cada agricultor, evitando endividamento inadequado e aumentando as chances de sucesso do investimento. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Crédito demais, na hora errada, pode prejudicar. Mas o crédito na medida certa transforma”, resume.
CONDIÇÕES DIFERENCIADAS – Outro ponto que diferencia o banco é a origem dos recursos utilizados nas operações, especialmente o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), que garante taxas mais acessíveis e disponibilidade contínua de crédito.
“É um recurso que vem de uma política pública. Isso permite oferecer juros muito abaixo do mercado e com prazos adequados, com carência, principalmente para investimento”, destaca. Dentro dessa estrutura, existem linhas específicas para diferentes perfis de produtores, desde os mais pequenos – atendidos por programas de microcrédito – até operações maiores, que podem chegar a centenas de milhares de reais.
Para os agricultores familiares de menor renda, há modalidades com condições ainda mais facilitadas. “São linhas que funcionam como porta de entrada. Muitas vezes, é o primeiro acesso ao crédito daquele produtor. Na prática, o modelo permite que produtores que antes não teriam acesso ao sistema financeiro consigam investir, modernizar suas atividades e aumentar a produtividade”, conta o superintendente.
Lourenzo explica que, sem esse tipo de crédito, muitos agricultores ficam limitados por custos operacionais que consomem toda a renda anual. “Você pega um produtor pequeno de café, por exemplo, em que, todo ano, ele tem gasto com secador, com máquina, com serviço, e a receita líquida não permite que ele compre esses equipamentos. Com financiamento adequado, esse cenário muda. Quando ele consegue financiar um secador, um trator, com taxa de 6%, 7% ao ano, com prazo e carência, aquilo vira investimento. No ano seguinte, ele já dá um salto na produção e na renda”, avalia.

Esse movimento, segundo ele, explica a evolução de muitos produtores ao longo dos anos. “A gente vê casos de quem começou com poucos hectares e, em cinco, dez anos, já está produzindo em escala muito maior. Isso só é possível com crédito adequado e orientado”, enfatiza.
Desenvolvimento que vai além da porteira
O impacto do crédito, no entanto, não se limita à produção individual. Para o superintendente do Banco do Nordeste no Espírito Santo, o modelo adotado pelo banco gera efeitos em cadeia nas economias locais. “Quando você financia o pequeno produtor, você está gerando emprego, renda e movimentando toda a economia da região”, afirma.
Ele cita como exemplo o surgimento de novos serviços dentro das propriedades rurais, como aluguel de máquinas, beneficiamento e comercialização, as transformando também em empreendimentos rurais. “O produtor deixa de atuar apenas na lavoura e passa também a gerar serviços, movimentar novos negócios e criar outras fontes de renda. Esse efeito multiplicador também contribui para a permanência de famílias no campo. Você mantém o jovem, mantém a mulher na propriedade, gera estabilidade”, comenta.
O aval que abre portas para pequenos empreendedores rurais
Foto: Arquivo pessoal

A interlocutora estadual do Programa Conexão Financeira do Sebrae/ES, Patrícia Queiroz Fontes, explica como funciona o fundo de aval
Além do acesso ao crédito rural tradicional, outro mecanismo que tem ajudado pequenos produtores, agroindústrias e empreendedores do campo a tirar projetos do papel é o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe), administrado pelo Sebrae. A ferramenta funciona como uma garantia complementar para quem busca financiamento, principalmente empreendedores que possuem potencial produtivo, mas encontram dificuldades para atender às exigências bancárias.
Na prática, o Fampe atua compartilhando parte do risco das operações com as instituições financeiras conveniadas, facilitando a aprovação de crédito para micro e pequenos negócios. Segundo a interlocutora estadual do Programa Conexão Financeira do Sebrae/ES, Patrícia Queiroz Fontes, o fundo tem papel importante justamente por ampliar o acesso ao financiamento para empreendedores que, muitas vezes, não possuem patrimônio suficiente para apresentar como garantia.
“Muitas vezes, o empreendedor tem capacidade produtiva, mercado e potencial de crescimento, mas não consegue acessar crédito por falta de garantias reais”, explica. Segundo ela, o fundo atende Microempreendedores Individuais (MEIs), Microempresas (MEs) e Empresas de Pequeno Porte (EPPs), incluindo produtores rurais formalizados e pequenas agroindústrias. As linhas podem ser utilizadas para investimentos em infraestrutura, modernização da produção, aquisição de equipamentos, inovação, capital de giro e expansão dos negócios, agregando valor aos produtos.
“O Sebrae atua também com orientação financeira e preparação do empreendedor, fortalecendo o uso consciente do crédito”
Patrícia Queiroz Fontes – Sebrae/ES
Segundo Patrícia, o Fampe tem contribuído para destravar investimentos em diversas regiões do país, especialmente em municípios do interior, onde o acesso ao crédito costuma ser mais limitado.
APOIO AO EMPREENDEDOR – Além do aval financeiro, o Sebrae também atua na orientação dos empreendedores, oferecendo consultorias, capacitações e apoio técnico para melhorar a gestão financeira e aumentar as chances de sucesso dos investimentos. No meio rural, esse suporte tem impacto direto na modernização das propriedades e no fortalecimento do empreendedorismo no campo.
Em todo o país, com o apoio do Sebrae, muitos produtores têm deixado de atuar apenas na produção agrícola tradicional e passam a investir também em industrialização, turismo rural, agroindústria e produtos com maior valor agregado. Esse movimento tem fortalecido o empreendedorismo rural no país e levado mais renda e qualidade de vida ao campo.
O sistema que impulsiona o agro e leva desenvolvimento ao campo
Foto: ABDE

O diretor executivo da ABDE, André Godoy, afirma que o Sistema Nacional de Fomento (SNF) ajuda a alavancar o agro nacional
Por trás das histórias de pequenos agricultores que conseguiram permanecer no campo, de jovens produtores que transformaram propriedades familiares em agroindústrias e de grandes projetos agrícolas que mudaram a realidade econômica de cidades inteiras, existe uma engrenagem financeira que ajuda a sustentar o crescimento do agro brasileiro: o Sistema Nacional de Fomento (SNF).
A Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) atua como articuladora e integradora do SNF, que reúne 35 instituições financeiras de desenvolvimento em todo o Brasil, como bancos públicos, bancos de desenvolvimento, cooperativas de crédito, agências de fomento e instituições financeiras voltadas ao desenvolvimento regional. Entre as instituições integrantes do SNF estão o Banco do Nordeste, o Sicoob e o Sebrae.
Segundo o diretor executivo da ABDE, André Godoy, as instituições financeiras ligadas ao SNF exercem papel decisivo na sustentação do agro nacional, tanto na agricultura empresarial quanto na agricultura familiar, na bioeconomia e nas cadeias produtivas regionais.
“A atuação dessas instituições é essencial para que o produtor consiga investir em tecnologia, ampliar área plantada, modernizar máquinas, financiar custeio e dar previsibilidade à produção”, destaca.
PLANO SAFRA – De acordo com levantamento da ABDE sobre a safra 2025/2026, o Plano Safra continua sendo a principal âncora de sustentação do agro brasileiro. O levantamento “Dinâmica do Crédito Rural e Perspectivas do Agronegócio – Balanço da Safra 2025/2026” reforça que as linhas tradicionais de crédito rural continuam sendo a principal base de sustentação do setor. Somente nas linhas de custeio foram movimentados R$ 120 bilhões, enquanto as operações de investimento somaram R$ 45,5 bilhões.

Para a ABDE, o agro brasileiro dificilmente teria alcançado o tamanho e a competitividade atuais sem a atuação dessas instituições financeiras. Mais do que financiar uma safra, o acesso a recursos se tornou peça estratégica para expansão, modernização e ganho de produtividade no campo. “O crédito permitiu que o setor incorporasse tecnologia, aumentasse produtividade, expandisse operações e chegasse a regiões que, muitas vezes, teriam pouco acesso ao sistema financeiro tradicional”, afirma Godoy.
APOIO NO CAMPO – Na prática, essa realidade aparece nas histórias contadas ao longo desta reportagem. A ABDE avalia justamente esse movimento como uma das principais forças do SNF, que tem a capacidade de descentralizar renda e levar desenvolvimento para regiões mais distantes do país.
“Quando o financiamento chega a regiões mais afastadas, ele não beneficia apenas o produtor rural, ele movimenta transporte, comércio, serviços, fornecedores, mão de obra local e toda a cadeia econômica ao redor da atividade financiada. Assim, o investimento produtivo no campo se converte em geração de emprego, circulação de renda e fortalecimento da economia dos municípios”, destaca Godoy.

Para o executivo da ABDE, esse conjunto de ações ajuda a formar uma rede de financiamento mais diversa, descentralizada e conectada às necessidades reais do campo brasileiro. “Cada Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD) cumpre uma função estratégica. Algumas têm atuação regional, apoiando cadeias produtivas locais e pequenos e médios produtores; outras operam com grande escala e alcance nacional; e há aquelas que se destacam pela atuação em segmentos específicos, como agricultura familiar, inovação, infraestrutura rural ou desenvolvimento territorial”, completa Godoy.
E é justamente essa combinação entre crédito, assistência técnica, empreendedorismo e investimento que ajuda a explicar como o agro brasileiro saiu de pequenas propriedades familiares e projetos regionais para se tornar uma das maiores potências agrícolas do mundo.
