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Os queijos Hollunder são produzidos por Anderson e Daniela em Marechal Floriano

Texto: Bruno Caetano

O Mundial do Queijo do Brasil 2026 terminou neste fim de semana mostrando que o queijo artesanal vive um dos momentos mais fortes da sua história. Realizado no Teatro B32, em São Paulo (SP), o evento reuniu produtores de 30 países e cerca de 2 mil queijos em disputa, colocando o Brasil no centro do mapa internacional do setor.

Os queijos produzidos no Espírito Santo se destacaram, com 12 premiações. Ao longo de quatro dias, a programação combinou competição, negócios e troca de conhecimento. Além dos julgamentos, o evento contou com palestras, congresso e mesas-redondas, reunindo cerca de 2,5 mil profissionais da cadeia láctea. A expectativa de público geral chegou a 60 mil pessoas.

Crescimento acelerado do setor

A evolução do Mundial chama atenção. Na primeira edição, em 2019, foram cerca de 800 produtos inscritos. Em 2026, o número praticamente triplicou, chegando a 2 mil, um crescimento de aproximadamente 150%.

A avaliação segue critérios técnicos rigorosos. Os 120 queijos mais bem pontuados recebem o selo Super Ouro. Em seguida, vêm as medalhas de Ouro e, depois, as de Prata. Entre os Super Ouro, um grupo seleto de jurados ainda escolhe os 17 melhores da competição.

Para a diretora do evento, Débora Pereira, o evento vira uma vitrine para os pequenos produtores. “O concurso é muito importante para os produtores. Quem conquista uma medalha no Mundial tem a vida mudada. Há aumento da demanda, valorização e ganho de qualidade de vida. Além de premiar os melhores queijos, o evento fortalece toda a cadeia queijeira do país”, destaca.

Espírito Santo ganha protagonismo

No meio desse cenário global, o Espírito Santo se destacou pelo número de premiações e pela identidade dos produtos apresentados. Ao todo, foram 12 prêmios, de oito queijarias que ficam em seis municípios capixabas. Em João Neiva, a Queijos Giacomin voltou para casa com uma coleção de medalhas. A queijaria conquistou o selo Super Ouro com o queijo Terra Nostra, além de duas pratas e um bronze, mostrando consistência em diferentes categorias.

A queijaria Giacomin, de João Neiva, faturou quatro medalhas no Mundial

“Estamos muito felizes. Esse prêmio não é só nosso, é do Espírito Santo”, destacaram os produtores Gabriela Giacomin Borlini e Pedro Henrique Giacomin. O diferencial, segundo a dupla, está na produção autoral. O Terra Nostra, por exemplo, combina leite da região, técnica própria e influência da tradição italiana da família. 

Segundo eles, o reconhecimento ajuda a posicionar o estado no mapa do queijo artesanal. “Hoje podemos dizer que o Espírito Santo já é conhecido e reconhecido nesse universo”, afirmam.

Tradição, inovação e identidade

Nas montanhas capixabas, o queijo Duetto, produzido por Amedeo Mazzocco, da Artelatte, em Venda Nova do Imigrante, conquistou o selo Super Ouro e reforçou a força da produção regional.

Outra queijaria do mesmo município que saiu com selo de Bronze foi o Queijo Centenário da Fazenda Carnielli que virou símbolo de dedicação e tempo. Criado para celebrar os 100 anos de uma família, o produto levou três anos até chegar à versão final. “Foi um queijo desenvolvido por anos, com muitos testes até chegar na forma ideal”, contou o produtor Lorenzo Zandonade Carnielli.

O resultado é um produto com massa cremosa e camadas de temperos, como pimenta síria e caiena, criando uma identidade única. “A gente começou a desenvolver em 2021 e só lançou em 2024, depois de muito teste e ajuste”, completou.

Novos produtores também ganham espaço

Em Marechal Floriano, a conquista no Mundial do Queijo tem sabor de virada de vida. Com apenas nove meses de queijaria registrada, Daniela Lopes Herbst Hollunder e o marido Anderson Hollunder conquistaram um Super Ouro com um queijo de coalho desenvolvido fora de qualquer tradição familiar.

“A gente nunca imaginou viver algo assim. Receber um Super Ouro no Mundial do Queijo é mais do que uma conquista, é um sonho que nem sabíamos que podia existir”, contou Daniela.

O casal Anderson e Daniela comemorou o importante prêmio para a queijaria familiar

Sem histórico no setor, o início foi marcado por tentativa e erro, estudo e rotina intensa. A produção foi sendo construída aos poucos, com ajustes diários e muito aprendizado até alcançar o resultado que hoje ganha reconhecimento internacional.

“Foram dias longos, noites curtas, fins de semana e feriados trocados pelo trabalho. A gente foi transformando tentativa em aprendizado e aprendizado em propósito”, afirmou. Agora, o prêmio chega como validação de um processo recente, mas consistente. O reconhecimento coloca a queijaria no mapa e reforça a força de novos produtores no cenário artesanal.

Produções capixabas diversas e premiadas

O reconhecimento capixaba também veio de outras regiões. Em Linhares, o produtor Gustavo Dambroz Soeiro Banhos conquistou medalha de prata com doce de leite de búfala. Em Cachoeiro de Itapemirim, o queijo Minas Meia Cura Calvi garantiu bronze, reforçando a tradição do sul do Estado.

Um dos destaques foi o produtor Roberto Cuzini, da queijaria Vila Vêneto, que conquistou medalha de Ouro com o queijo Morbier e Bronze com o Queijo Original Otello, um produto autoral que já vinha acumulando reconhecimentos.

Roberto Cuzini, da Quejaria Vila Vêneto, estava com estande durante o mundial e comemorou as conquistas

O resultado coloca a queijaria entre os nomes mais consistentes da competição, com premiações em diferentes categorias e estilos de produção. “Nós tivemos aqui a alegria, estamos muito felizes. A Vila Vêneto foi premiada no Mundial com medalha com um queijo autoral da casa”, afirmou.

Segundo o produtor, o desempenho está diretamente ligado ao modelo adotado pela queijaria, que controla todas as etapas do processo produtivo. A produção começa na própria fazenda, com o leite sendo acompanhado desde a origem até a transformação final dentro da agroindústria, o que garante padrão, identidade e qualidade aos produtos.

Esse modelo integrado, segundo Cuzini, é o que permite manter regularidade e alcançar resultados expressivos em competições internacionais. “É importante destacar que nós fomos a única queijaria do Espírito Santo com estande de comercialização no evento. Foram quatro dias de muita visitação, vendas e oportunidades de negócio. A gente sai daqui com toda a produção que trouxemos praticamente vendida e já com novos pedidos encaminhados. Além disso, tivemos a chance de apresentar a nossa história, falar do nosso processo, das nossas vacas e dos nossos queijos, mostrando um projeto totalmente integrado ao Espírito Santo”, informou.

Setor em expansão

O desempenho no Mundial reflete um movimento maior. Hoje, os queijos artesanais já representam uma fatia importante da agroindústria capixaba, com mais de 1.700 queijarias espalhadas pelo estado.

Regiões como as montanhas capixabas, o Caparaó e polos como João Neiva vêm se consolidando como referências na produção, impulsionadas por iniciativas como a Rota do Queijo Artesanal. 

Confira a premiação por categoria

Super Ouro

  • Artelatte (Venda Nova do Imigrante) – Queijo Duetto
  • Queijos Giacomin (João Neiva) – Queijo Terra Nostra
  • Queijaria Sítio Hollunder (Marechal Floriano) – Queijo de Coalho

Ouro

  • Vila Veneto Queijaria (João Neiva) – Queijo Morbier

Prata

  • Queijos Giacomin (João Neiva) – Capixaba Gourmet
  • Queijos Giacomin (João Neiva) – Palitinho Mussarela
  • Queijaria da Fazenda (Linhares) – Doce de leite

Bronze

  • Queijos Giacomin (João Neiva) – Queijo Mundo Novo
  • Calvi Laticínios (Cachoeiro de Itapemirim) – Queijo Minas Meia Cura
  • Vila Veneto Queijaria (João Neiva) – Queijo Original Otello
  • Fazenda Carnielli (Venda Nova do Imigrante) – Queijo Centenário
  • Queijaria Iolanda (Aracruz) – Queijo Colonial